A menina disse que havia migalhas.
"Migalhas, ali!"
Apontou. Eu afastei os grãozinhos da barba e sorri.
"Obrigado".
"Bons esses biscoitos" Eu disse.
"É..."
Naquela manhã de terça feira, iria encontrá-la cantando e dançando sobre uma poça d'água. Chamou-me. Deixei que dançasse mais um pouco, afinal, a hora era chegada, e mais tarde, não mais poderia dançar.
Trançou os cabelos e prendeu-os com uma fita roxa. Correu pelo capim ralinho, dando pulinhos. Empurrou um e outro.
"Já chega!" Eu disse!
"Mais um pouco vai..."
"Tá..."
Aproximou-se lentamente do menino sentado sobre um toco de árvore cortado. Atravessou seu peito com as mãos nuas e balançou de leve, com o indicador a alma da criança. Esta jogou-se ao chão, rindo como desesperado. Ela riu também.
"Porquê os humanos riem tanto?" Me perguntou.
"Porque não se preocupam. Não tanto quanto nós. Ao menos, não quando jovens."
Ela correu mais um pouco, subindo uma colina, observando entre as estrelas, o ponto de onde deveria invocar a chave.
"Me disseram que um dia vamos voltar aqui. Pra falar com o senhor triste..."
"Vamos sim. Mas vai demorar muito."
Ela observa o menino, enquanto é chamado pra casa, correndo pelo gramado ralo.
"Vou poder vê-lo novamente?"
Era o sorriso mais lindo do mundo. Não tinha como não sorrir de volta.
"Vai sim querida. Infelizmente, vai."
E anoiteceu.
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Dizem que o senhor do tempo é um cara muito, muitíssimo chato. Quando Alessandra econtrou-o entre os céus tempestuosos de um planetinha amarelado, ele pigarreou.
"Que faz aqui?"
"Apenas passando"
"Passe logo"
'O tempo tem pressa?"
"Não paro. Nem posso."
Achou engraçada a idéia do tempo parando. Pensou em fazer cócegas nele para que ele soltasse aquele carretel imenso. Ah. O Carretel.
Senhor tempo enrolava o carretel rapidamente, fiando e fiando aquela trama imensa. Aquela trama inútil. Era uma trama colorida, com matizes quentes de tons avermelhados e amarelos. Estes iam caindo ao chão, azulados e cinzentos, até esfarelarem-se completamente. E lá ia o velho chato, incansável.
"Você não descansa?"
O velho ignorou-a. Velhos tinham essa terrível mania de ignorar os mais jovens, vingindo-se de surdos. Alessandra sabia que o tempo ouvia, e muito bem. Repetiu, petulante:
"VOCÊ NÂO SE CANSA?"
Sua careca pareceu reluzir, num dado momento em que olhou-a de soslaio, intimidador. Nesse instante, o fuso escapou-lhe do dedo por alguns segundos, e um buraco enorme surgiu na trama perfeita e complicada da manta.
"Maldita sejas menina! Olha o que fiz!"
Mas a menina não mais podia ouvir-lo. Era costume dos mais novos, deixar os idosos falando sozinhos como se fossem loucos. Vingativa a pequena. Estendeu a mão até a estrela mais ao norte e desenhou um longo traço até a outra estrela. Não tardou a surgir em meio a umn círculo vermelho, o pequeno Diabrete.
"Chamou?"
"SIm."
Vidro.
Gelado.
O silêncio sob os dedos polpudos, marcou-se em riscos caprichosos sobre o vapor.
Quando as lágrimas chegaram, dias atrás, enganou-se.
Agora estava certa.
Desenhou um sorriso, que tímido fitou-a, enquanto o outro, parado sob a sacada, acenava.
***
Não fez cerimônia. Empurrou o fulano sobre a mesa. Os outros riram.
Ela, obviamente, manteve-se em silêncio mortal enquanto os personagens do desenho riam-se aleatórios. Observou-o, envergonhada. Ele era estúpido e tratava mal as mulheres. Chamava elas de gostosas e tarava seus traseiros, com aquela expressão estranha, safada.
Tinha nojo dele. Tanto nojo que o deixou guiar-lhe entre os lençóis. Ouviu uma baladinha em espanhol em sua mente, um pouco antes de gozar. Enojada, apaixonou-se.
***
Queria um vestido azul. tinha um bonito, florido. Arregaçava-o até as coxas, portando-se como vadia na rua. Tudo para levar na cara e sorrir. Secretamente claro.
***
Naquela manhã nublada, despiu-se completamente apesar do frio. Aproximou-se do vidro fosco. A chuva caia enraivada lá fora, esbravejando coisas sem sentido.
Ele estava lá fora, do outro lado do sorriso. Acenou para ela. Ela acenou devolta. E nunca mais se viram.
***
Com uma taça quebrada, rasgou em tiras seu vestido azul-florido. Esparramou o vinho entre seus seios e cortou finas tiras de pele do abdome nu.
Com o sangue desenhou um símbolo mágico na parede, que deveria guiar seus sonhos para algum lugar bom. Dormiu.
***
Quando tornou a acordar, era quase hora de levar as crianças pra creche. Ajeitou o batom e o cabelo, e ergueu-se soberana, a desfilar entre seus delírios. Estes deveriam ficar em casa, é claro. Hora de trabalhar.
Ao erguer a bolsa sentiu uma leve pontada no peito.
Morreu.