Xáu Guigo
Este conto, que não é bem conto.
Começa com uma morte. Uma morte simples, não necessariamente tranqüila.
Havia aquela senhora. Pançudinha, alegre. Fumava cigarros de palha com
fumo de corda e era viciada em café e farinha. Ria de um jeito
engraçado e cuidava de mim de novinho. Chamavam-na Doca. A vó Doca.
Ela morreu. Hoje.
Quando minha mãe saía para trabalhar, ela pendurava-se numa lata e me
passava pela janela. Era um segredo mais que secreto, que ela me
levaria até a casa dela, me colocaria no coxo, cheio de água e me daria
groselha pra beber. E lá eu ficaria até o meu pé ficar velhinho. Aí ela
me cantaria a música da baratinha porque sabia que eu gostava. "A
barata diz que tem, sete saias de filó! É mentira da barata, que ela
tem é uma só!"
Ela morreu, de insuficiência respiratória. No caminho do hospital. Simplesmente, parou de respirar e se foi.
Ela gostava de preparar um misto de ovo e farinha de mandioca com sal e
fritar. Dizia que quando a avó dela estava doente, saía com aquilo num
saco e levava pra avó. Que a mãe dela fazia. E que era bom, assim eu
cresceria forte e robusto. Ela me deixava brincar na rua. Vinha
correndo, porque eu sempre pisava nas plantas dela, brincando com meus
bonequinhos, construindo bases militares entre os pés de hortelã ou
prédios secretos no meio das flores amarelas.
"Sai dai seu tiraninho!"
Quando me deram a notícia, foi uma coisa meio assim, seca. "Sua avó
faleceu". Não acreditei na hora. Achei que era palhaçada. Quase ri. Mas
não foi riso que eu ouvi. Foi um soluço. Involuntário. Lágrimas
grossas. Quentes. Tinha que sair dali. Sentei no ponto de ônibus e
chorei. Um grande espetáculo aos transeuntes. Chorei. Chinguei ela.
Disse que era uma idiota de fazer isso. Oras, partir assim. Sem se
despedir. Sem dizer nada! Merecia uma bela "camaçada de pau".
Ela dizia que era minha mãe do dia. E que me amava. E dizia que o
cigarro dela era o "Cheroso". E dizia que não era pra eu fumar porque
eu era bem novinho. E cantava:"Seu Rodrigo, pé de bico, Manoel, pé de
Tabaco...". Ela tinha uma das risadas mais gostosas do mundo. E agora
não pode rir. Deve estar fria, entre flores, numa caixa de madeira
imóvel. Não vou mais ver o peito mamicudo se mechendo com força.
"GUIGOOOOOOOO! VEM TOMÁ CAFÉÉÉ!"
Alguns dias atrás encontrei ela saindo do hospital. Estava mais forte.
"Vó, contei sobre a música que tu cantava"
"música?"
"Quem quer casar com a senhora baratinha! Que tem fita no cabelo e dinheiro na caxinha."
"Ah barata! Tu... sempre cantava. Quando... vivia cantando. E vivia no
meio das tuas tralhas. auele monte de lixo que não jogava fora e ficava
inventando coisa. E ficava cantando... a música... é é, nem sei mais."
Ela sorriu. E é com esse sorriso em mente que imagino que ela partiria
se pudesse. Estendendo as mãos num aceno, com aquele vestidinho
surrado, os cabelos encaracoladinhos que eu erdei, e o olho vermelho e
choroso..
"Xau Guigo. Xáu."
"Xáu vó."
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