Cruces Negras
Vidro.
Gelado.
O silêncio sob os dedos polpudos, marcou-se em riscos caprichosos sobre o vapor.
Quando as lágrimas chegaram, dias atrás, enganou-se.
Agora estava certa.
Desenhou um sorriso, que tímido fitou-a, enquanto o outro, parado sob a sacada, acenava.
***
Não fez cerimônia. Empurrou o fulano sobre a mesa. Os outros riram.
Ela, obviamente, manteve-se em silêncio mortal enquanto os personagens do desenho riam-se aleatórios. Observou-o, envergonhada. Ele era estúpido e tratava mal as mulheres. Chamava elas de gostosas e tarava seus traseiros, com aquela expressão estranha, safada.
Tinha nojo dele. Tanto nojo que o deixou guiar-lhe entre os lençóis. Ouviu uma baladinha em espanhol em sua mente, um pouco antes de gozar. Enojada, apaixonou-se.
***
Queria um vestido azul. tinha um bonito, florido. Arregaçava-o até as coxas, portando-se como vadia na rua. Tudo para levar na cara e sorrir. Secretamente claro.
***
Naquela manhã nublada, despiu-se completamente apesar do frio. Aproximou-se do vidro fosco. A chuva caia enraivada lá fora, esbravejando coisas sem sentido.
Ele estava lá fora, do outro lado do sorriso. Acenou para ela. Ela acenou devolta. E nunca mais se viram.
***
Com uma taça quebrada, rasgou em tiras seu vestido azul-florido. Esparramou o vinho entre seus seios e cortou finas tiras de pele do abdome nu.
Com o sangue desenhou um símbolo mágico na parede, que deveria guiar seus sonhos para algum lugar bom. Dormiu.
***
Quando tornou a acordar, era quase hora de levar as crianças pra creche. Ajeitou o batom e o cabelo, e ergueu-se soberana, a desfilar entre seus delírios. Estes deveriam ficar em casa, é claro. Hora de trabalhar.
Ao erguer a bolsa sentiu uma leve pontada no peito.
Morreu.