A mancha
Quando a colher de doce de leite caiu sobre o sofá, o mundo parou. Tudo ficou vermelho. Trovões riscaram o céu de madeira fazendro tremerem as dezenas de bonequinhos de cima da estante.
___COMO OUSA!
Prevendo o que aconteceria em seguida, agarrou-se em almofadas fofinhas como o náufrago a mão trêmula do capitão russo do navio estranho.
___Não me mateeeeee!
A coisa parecia séria. Ela havia colocado as mãos na cintura, símbolizando, segundo os beta-carotenos, a posição da fera açucareiro from hell. Seja o que for, era perigoso, e os olhos assustadores só confirmavam essas deduções.
___Sabe QUANTO custa para mandar limpar ESSA MERDA QUE VOCÊ ACABOU DE FAZER?
Era sempre a mesma coisa. Ele faria carinha de inocente e não ia adiantar. Pediria perdão e começaria uma cena de auto-flagelo inútil, que resultaria num aumento progressivo da raiva dela, a tal ponto que vidas, vidas inocentes de objetos que ele amava imensamente corriam risco de vida.
___Não foi de propósito amor. Essas coisas são como imãs. não dá de se distrair. Ó, amanhã acordo cedinho, mando a Dinorá limpar, ela sabe umas técnicas avançadas das trisavós dela, lá do Egito pra limpar pêlo de camelo. Eu vou dar um jeito juro!
___Sempre a mesma coisa! SEMPRE!
___Amor...
___NÃO SE FAÇA DE...
___Eu vou dar um jeito...
___ Eu não sei o que eu fiz pra merecer...
___Amor...
___Porque não cala essa boca? SE não fosse um fudido e ganhasse mal a gente não ia...
O tempo pára, Quase posso ouvir o sonzinho característico do pause do Supermario. Ela, a boca entreaberta de quem falou demais, como que procurando reengolir todas as palavras de volta, sugando-as. Mas isso não acontece. Ele, imóvel, com cara de quem não acredita no que está acontecendo prepara-se para a segunda fase da discussão.
WORLD 1.2
THE REVOLT
Mário cruza a tela, macacão vermelho até a fase onde a princesa Peach aguarda com a cara de arrependimento.
___Eu não queria...
___...
___Ai amor, tu me irrita as vezes.. não precisava...
___...
___Pára...
___...
Ela vem até ele. Ele vira a cabeça, controlando toda a azía interna, o caldeirão maligno em brasa que tapado herméticamente não permitiria que uma profusão de palavras de baixo calão se espalhasse pelo ar doce de uma noite caseira de sábado.
___Amor... Perdão...
___Não tem problema...
___Tem sim! me perdoa...
___Não esquenta...
___PARA! Eu te amo!
___Tb te amo.
___Vem cá. Me abraça.
___Tá.
Ele sorri escondidinho. A raiva se dissipa em segundos e aproveita a posição para sentir o cheirinho do pescoço dela. Imoralmente, lambe seu rosto de aulto a baixo.
___Filho da puta!
___He he.